... num acto de puro castigo!
Se há coisa que eu gosto é de aromas e sabores.
Posso até dizer que tenho um olfacto muito bem apurado. Os que me agradam ficam-me vincados na memória para sempre e só de os imaginar, consigo detectá-los à distância. Os que não, guardo-os numa gavetinha à parte para que não se misturem e sempre que necessário, socorro-me deles para identificar algo que parece querer escapar-me... mas sou terrivelmente persistente e, vasculho-os e remisturo-os até chegar ao busilis da questão.
Há dois dias, que, ao abrir a porta do frigorífico da Tasca, me chegava às narinas um odor estranho.
- Não gosto disto!
Gosto de abrir esta porta e levar com um ar fresco pelas trombas, um ar misturado de aromas prazerosos que me despertam de imediato as papilas gustativas e me levam ao incomensurável desejo de saborear comidinha gostosa, doce ou salgada, consoante o desejo de satisfação de um dos grandes prazeres da vida, comer!
Gosto de abrir esta porta e levar com um ar fresco pelas trombas, um ar misturado de aromas prazerosos que me despertam de imediato as papilas gustativas e me levam ao incomensurável desejo de saborear comidinha gostosa, doce ou salgada, consoante o desejo de satisfação de um dos grandes prazeres da vida, comer!
Remexi as gavetas dos legumes, tudo em ordem... apenas uma alface com umas folhitas meio amareladas... nada de grave. Revistei a prateleira de bebidas, águas, minis, sumo de maçã... nada a denunciar. Passei pela prateleira de iogurtes, manteiga, ovos, compotas... tudo na validade. Vasculhei a seguinte, fiambre... não estava mau, mas como só gostamos do fiambre fresco... gatos com ele que até se babam todos. Queijo fatiado, queijo inteiro, queijo creme, queijo ralado, queijo... hummm... snif snif... queijo inteiro... snif snif... em vegetal embalado... snif snif... cá está ele... odor identificado!
- Ah Malandro! Que não me lembrava de ti!
- Julgas que te escapas???

Vou de retirar o papel ao dito, o aroma intensifica-se, queijo puro, suado, a remelar de bolôr no fundo onde o papel teimava em não descolar. Tratei-o com o jeitinho que tal iguaria merece, raspei-lhe a camada cinzenta de pêlo rasteirinho que se formava sem avisar, humedeci uma folha de papel absorvente com azeite e, besuntei-o como se o quisesse proteger das agressões do ambiente, coloquei-o sobre a tábua, peguei na faca afiada e, entreguei-o ao destino que lhe pertencia...

- Vai uma fatia do meu queijo? ;)


