Os Meus Artigos

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Rica tarde...

... em amena cavaqueira com o ferro de engomar!



Tudo começou logo de manhãzinha quando abri o roupeiro onde repousa o cesto com a roupa lavadinha e dobradinha à espera que alguém, moi même, lhe passe o ferro quente por cima. O monte era tão grande que tombou direitinho às minhas mãos. Vá lá, consegui ampará-lo e voltar a aconchegá-lo. Fechei a porta com jeitinho e lembrei-me que me faltavam peças de roupa nas gavetas para usar. Também já tinha ouvido perguntar por esta ou aquela peça que tinha ido para lavar e não tinha regressado a outro roupeiro, ao que respondi que o serviço de lavandaria cá da tasca estava atrasado por via de outros assuntos mais importantes a tratar, por via do calor que se havia sentido nos últimos dias e ainda por via de não apetecer cumprir esta árdua tarefa em tempo de verão.
Depois do almoço e depois de mais uns afazeres prioritários, tratei de ir buscar o ferro de engomar e a tábua para a cozinha. Seccionei o monte da roupa e fui pousando em cima da mesa da cozinha. Tudo a postos para a dar início ao trabalho e, às habituais conversas com o meu querido instrumento de auxílio às lides domésticas.
- Ó dona minha... Há quanto tempo não me ligavas nenhuma...
- Tens razão! Sentiste a minha falta?
- Muita mesmo! Sobretudo das nossas tertúlias sempre tão úteis e produtivas! Cof cof cof!
- Mau! Estás a gozar comigo ou é mera impressão minha?
O meu ferro de engomar é esperto e inteligente ao mesmo tempo. Manda-me assim umas piadas secas mas também reconhece que nos momentos em que estamos só nós dois, para além de despachar-mos trabalho, também fazemos reflexões, ajustamos contas com a vida, fazemos planos, delineamos estratégias e tem dias em que sonhamos... sonhamos... sonhamos...
Como a tarde prometia ser longa tivemos tempo para tudo e de repente ele sai-se com uma idéia genial. Ele conhece-me bem, topa-me à légua e acertou em cheio ao dizer-me:
- Ó dona minha... precisas dar uso ao verbo "ir"!
- Ir?!?! Eu todos os dias vou!!!
- Não te faças de desentendida! Ir mulher! Ir! Mudar de ares! Arejar as idéias!
- Ai meu querido... mas eu vou! Na passada semana fui três dias seguidos! Ainda ontem, voltei a ir!
- Foste sim! E ontem bem reparei, voltaste cansada! Aborrecida! Chateada! Na na na na... não é nada desse ir que eu me refiro!
- Sim, fui e voltei! Tratei do que tinha a tratar! Cheguei com a língua de fora de tanto calor! E apesar de conduzir ser um dos meus maiores prazeres, concordas comigo no que toca a fazer quilómetros por uma estrada nacional cheia de camiões, semáforos, limites de velocidade, piso podre de mau e calor... certo?!
O blá blá blá continuou... até que ele me interroga:
- Interior alentejano diz-te alguma coisa?
- Não me infernizes os poucos neurónios que ainda se mantêm em funcionamento, por favor!
- Turismo Rural, uma piscina, uma espreguiçadeira, um livro, uma noite quente a observar as estrelas cadentes, um petisco daqueles acompanhado de um belo tinto...
- Pronto! Pronto! Já chega! Agora não dá nem para pensar nisso!
Instalou-se o silêncio entre nós. Só o vai vem do ferro e o som do vapor a sair. As peças saíam certinhas e direitinhas ao monte a que pertenciam e prontas a arrumar e, quando dei por mim já estava a elaborar uma lista mental do que tinha que fazer até sair de casa, do que tinha que preparar para levar para uns dias de qualidade à alentejana. Íamos todos juntos. Mãe Bela ao volante, Titó ao lado e os meninos no banco de trás. Napoleão Manuel à esquerda a olhar os passaritos que sobrevoavam os chaparros e os campos de feno já amarelecido. Lira Maria e Pipoca Maria sempre ao meio a conversar connosco e a rezingar com os rapazes do lado. Petit Manuel à direita a observar o trânsito e sempre a perguntar se ainda falta muito para chegarmos.
O toque do telefone soou tão forte e inesperado que interrompeu aquele sonho visualizado. Atendi. Do outro lado alguém me pedia que elaborasse com urgência uma reclamação por escrito para uma entidade financeira. A voz do lado de lá saía enérgica e irritada. Eu do lado de cá sentia dificuldade em captá-la e assimilá-la. Levei algum tempo em situar-me no foco da questão em causa e isso foi perceptível a quem mo implorava.
- O que estás a fazer?
- A passar a roupa a ferro!
- Ah bom! Continua lá que mais tarde explico-te melhor!
A minha conversa com o ferro de engomar apagou-se ali. O meu sonho fora interrompido e estava a ser bonito. As minhas antenas voltaram-se para aquilo que mais tenho feito ultimamente. Reclamações por escrito com direito a um número considerável de páginas. Verdadeiros dossiers com anexos e comprovativos disto e mais daquilo. Estou tão perita neste assunto que se eu já há muito e muito tempo tinha a certeza de ter errado na profissão, cada dia que passa me mostra mais evidências disso mesmo.
- Dona minha, o assunto não morre aqui! A roupa está em dia e vai para as gavetas e roupeiros. Eu vou para o meu armário e tu... prometes-me que alivias a carga que te pesa nos ombros mesmo que o Interior Alentejano não seja o destino!
- Vou tentar meu ferrozinho de engomar! Vou tentar!


5 comentários:

Anabela disse...

Bom dia,
Como a entendo!!!!!
Mas o seu querido ferro tem toda a razão.
Beijinhos

Ana Rita disse...

A inspiração voltou!
Gostei do texto!
E gostei aind amais de ter a ropinha engomadinha e pronta a vestir :)

Beijinho

Margarida disse...

Bom dia Anabela.... um miau bem grande para os teus meninos/as!!!!

O meu ferro de engomar deve ser mudo, ou entao pouco inteligente, pois nunca me da ideias maravilhosas como as que o teu te da... Olha que pena :(!!!

Deixo-te o convite para quando tiveres um bocadinho passares no meu cantinho, está cheio de tachos e panelas, mas...

Beijocas

Abóbora Amarelinha disse...

Olha, não sei...só tu gaja cenoura!
beijos

Cenourit@ disse...

Anabela,
O meu querido ferro é uma espécie de meu confessor e entende-me e até me dá boas orientações :)

Ana Rita,
Gostaste disso tudo??? Como eu sabia... :)

Margarida,
Tens que o trocar! Eheheheh!
Não tenho passado pelos blogs mas entretanto faço lá uma visitinha :)

Abóborinha,
Não sabes pois não? Nem eu... eheheheh

Beijocas meninas***

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